O patrimônio líquido somado dos fundos imobiliários brasileiros saiu de R$ 423,56 bilhões em janeiro de 2026 para R$ 456,29 bilhões em junho, um avanço de 7,73% no semestre. No mesmo período, o número de informes mensais entregues à CVM subiu de 1.239 para 1.326.
O número que explica melhor o semestre, porém, é outro. Entre os 1.202 fundos que entregaram informe em todos os seis meses, 661 não reportaram nenhum rendimento distribuído em nenhum dos meses. São 55,0% do conjunto. O mercado de FII que aparece nos dados oficiais é, em maioria, um mercado que não paga rendimento mensal.
Este texto acompanha as seis competências de 2026 já consolidadas no Informe Mensal de FII da CVM, de janeiro a junho, e estende para o semestre o recorte de um único mês publicado no retrato de junho de 2026. Todos os números vieram do arquivo oficial, baixado em 10 de agosto de 2026, e os indicadores de juros e inflação vieram das séries do Banco Central consultadas no mesmo dia.
O achado: 55% dos fundos não distribuíram nada em seis meses
Para separar movimento real de troca de composição da amostra, o corte abaixo usa apenas o painel constante: os 1.202 fundos com informe em todos os seis meses. Dividindo esse painel pelo número de meses em que reportaram rendimento positivo, aparecem três populações muito distintas.
| Grupo | Fundos | % do painel | PL em junho (R$ bi) | PL mediano (R$ mi) | Cotistas |
|---|---|---|---|---|---|
| Distribuiu nos 6 meses | 305 | 25,4% | 226,34 | 332,58 | 11.304.344 |
| Distribuiu de 1 a 5 meses | 236 | 19,6% | 96,76 | 135,73 | 2.736.117 |
| Não distribuiu em nenhum mês | 661 | 55,0% | 113,33 | 57,17 | 1.691.316 |
Dividend yield, aqui, é o rendimento distribuído no mês dividido pelo valor da cota, do jeito que o próprio fundo declara no informe. Não é rentabilidade total, e não considera variação de preço.
Os 305 fundos que distribuíram todos os meses respondem por R$ 226,34 bilhões, quase metade do patrimônio total do mercado, e concentram 11,3 milhões dos vínculos de cotistas registrados, uma base cuja concentração já foi detalhada no post sobre cotistas de FII. O fundo mediano desse grupo tem R$ 332,58 milhões de patrimônio. Já o fundo mediano do grupo que nunca distribuiu tem R$ 57,17 milhões, cerca de um sexto do tamanho.
Isso muda a leitura de qualquer estatística agregada do setor. A mediana de dividend yield calculada sobre todos os fundos de junho é exatamente 0,0000%, porque mais da metade da amostra reporta zero. O número não está errado, mas responde a uma pergunta que quase ninguém está fazendo. Daqui em diante, sempre que este texto falar em rendimento mediano, o cálculo considera apenas os fundos que distribuíram algo no mês, e o tamanho dessa amostra vai declarado.
Fundos que não distribuem não são anomalia: fundos de desenvolvimento imobiliário em fase de obra, fundos exclusivos e veículos em estruturação convivem no mesmo conjunto de dados que os fundos de renda mensal. O informe da CVM não classifica um contra o outro. Quem olha só a média do setor mistura os dois.
Patrimônio: R$ 32,73 bilhões a mais, e de onde vieram
O crescimento de R$ 32,73 bilhões no semestre não veio principalmente de valorização dos fundos que já existiam.
No painel constante dos 1.202 fundos, o patrimônio somado passou de R$ 421,55 bilhões em janeiro para R$ 436,43 bilhões em junho. São R$ 14,88 bilhões a mais, alta de 3,53%.
O restante veio de fundos que ainda não estavam no conjunto em janeiro. Entre fevereiro e junho, 109 fundos entregaram seu primeiro informe do ano, e os 104 deles que já apareciam na competência de junho somam R$ 19,17 bilhões. Isso equivale a 58,6% de todo o avanço do semestre. Na direção oposta, 22 fundos entregaram seu último informe antes de junho e saíram da série.
| Competência | Informes | PL somado (R$ bi) | Fundos que distribuíram | Rendimento mediano de quem distribuiu |
|---|---|---|---|---|
| Janeiro | 1.239 | 423,56 | 424 | 0,8267% |
| Fevereiro | 1.249 | 427,31 | 440 | 0,7757% |
| Março | 1.257 | 432,69 | 437 | 0,7861% |
| Abril | 1.283 | 441,07 | 430 | 0,8205% |
| Maio | 1.300 | 447,41 | 441 | 0,8232% |
| Junho | 1.326 | 456,29 | 466 | 0,8585% |
A distinção importa para quem lê manchete de crescimento de mercado. Um setor pode inchar porque os ativos existentes valorizaram ou porque entraram veículos novos. No primeiro semestre de 2026, o segundo efeito pesou mais.
A concentração, medida pela fatia do patrimônio nos maiores fundos, recuou um pouco no período. Em janeiro, os dez maiores respondiam por 16,07% do patrimônio total, os cinquenta maiores por 41,15% e os cem maiores por 56,06%. Em junho, os mesmos cortes marcavam 15,71%, 39,22% e 53,57%. A queda é modesta e é consistente com a entrada de fundos novos diluindo o topo, não com encolhimento dos grandes.
O rendimento mediano de quem distribui, mês a mês
Entre os fundos que distribuíram algo, o rendimento mediano mensal saiu de 0,8267% em janeiro para 0,8585% em junho, alta de 3,85% no valor do indicador. O ponto mais baixo do semestre foi fevereiro, com 0,7757%.
Junho também foi o mês com mais pagadores: 466 fundos distribuíram algo, contra 424 em janeiro. Como o total de informes cresceu no mesmo ritmo, a proporção pouco mudou: 34,2% dos informes em janeiro e 35,1% em junho vieram acompanhados de rendimento positivo.
No painel constante, o desenho é o mesmo, com nível levemente diferente: 0,8295% em janeiro e 0,8456% em junho. Ou seja, a alta do indicador não é artefato da entrada de fundos novos, embora os entrantes puxem um pouco o número para cima.
Se o ritmo de junho se mantivesse por doze meses, o que é uma estimativa e não uma projeção do que vai acontecer, 0,8585% ao mês corresponderia a cerca de 10,80% em um ano.
Como os rendimentos de junho se espalham por faixa
O rendimento mediano esconde uma dispersão larga. Entre os 466 fundos que distribuíram em junho:
| Faixa de rendimento no mês | Fundos | % dos pagadores |
|---|---|---|
| Até 0,40% | 62 | 13,3% |
| De 0,40% a 0,60% | 59 | 12,7% |
| De 0,60% a 0,80% | 90 | 19,3% |
| De 0,80% a 1,00% | 75 | 16,1% |
| De 1,00% a 1,50% | 130 | 27,9% |
| De 1,50% a 5,00% | 50 | 10,7% |
A faixa mais populosa é a de 1,00% a 1,50%, com 130 fundos, e 38,6% dos pagadores ficaram acima de 1,00% no mês. Ao mesmo tempo, 26,0% ficaram abaixo de 0,60%. Um investidor que use "o rendimento típico de um FII" como referência única está descrevendo uma faixa em que cabe menos de um quinto do mercado pagador.
O intervalo interquartil de junho vai de 0,5726% a 1,1399%, o mais aberto do semestre. Em fevereiro, o mesmo intervalo ia de 0,5396% a 1,0024%. A dispersão aumentou junto com o nível.
O semestre por segmento
O informe traz um campo de segmento preenchido pelo próprio fundo. As duas maiores categorias, Multicategoria e Outros, respondem por 963 dos 1.326 informes de junho, o que limita bastante o poder descritivo desse campo.
| Segmento | Informes em junho | Pagadores jan | Mediana jan | Pagadores jun | Mediana jun | PL jun (R$ bi) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Multicategoria | 620 | 180 | 0,8721% | 197 | 0,9420% | 228,47 |
| Outros | 343 | 101 | 0,9470% | 112 | 1,0093% | 83,01 |
| Logística | 102 | 46 | 0,7134% | 48 | 0,7528% | 54,35 |
| Shoppings | 70 | 35 | 0,6677% | 40 | 0,6310% | 44,18 |
| Escritórios | 68 | 25 | 0,5352% | 28 | 0,5845% | 27,21 |
| Residencial | 80 | 18 | 0,4918% | 23 | 0,7710% | 6,30 |
| Hospital | 17 | 7 | 0,5519% | 8 | 0,5793% | 5,26 |
| Varejo | 12 | 8 | 0,7447% | 6 | 0,7012% | 3,50 |
| Hotel | 11 | 3 | 1,8028% | 3 | 0,7373% | 3,32 |
| Híbrido | 1 | 1 | 0,3691% | 1 | 0,3630% | 0,43 |
| Educacional | 2 | 0 | sem pagador | 0 | sem pagador | 0,26 |
Entre os segmentos de tijolo com pelo menos vinte fundos pagadores, Escritórios teve o menor rendimento mediano de junho, 0,5845% com 28 pagadores, ainda que tenha subido em relação aos 0,5352% de janeiro. Shoppings foi o único segmento grande a recuar no período, de 0,6677% para 0,6310%, com 40 pagadores em junho contra 35 em janeiro. Logística subiu de 0,7134% para 0,7528%.
O salto de Residencial, de 0,4918% para 0,7710%, veio acompanhado de mudança de amostra: eram 18 pagadores em janeiro e 23 em junho. Com números tão pequenos, a troca de composição pesa mais que o comportamento dos fundos que ficaram.
O acumulado do semestre diante da Selic e do IPCA
Somando o rendimento mensal declarado dos 305 fundos que distribuíram nos seis meses, o fundo mediano acumulou 4,8955% no semestre. O primeiro quartil ficou em 3,6410% e o terceiro em 6,3022%. Os extremos vão de 0,1678% a 15,8278%.
No mesmo período, segundo o Banco Central, a Selic acumulada rendeu 6,8369% e o IPCA acumulou 3,3645%.
| Competência | Selic acumulada no mês | IPCA no mês |
|---|---|---|
| Janeiro | 1,16% | 0,33% |
| Fevereiro | 1,00% | 0,70% |
| Março | 1,21% | 0,88% |
| Abril | 1,09% | 0,67% |
| Maio | 1,07% | 0,58% |
| Junho | 1,12% | 0,16% |
| Acumulado no semestre | 6,8369% | 3,3645% |
A comparação exige duas ressalvas para não virar conclusão errada. Primeiro, a soma de rendimentos mensais declarados não é retorno total: ela ignora completamente a variação do preço da cota em bolsa, que pode ter sido positiva ou negativa e não está neste conjunto de dados. Segundo, o rendimento distribuído por FII é isento de Imposto de Renda para a pessoa física que cumpre as condições legais, enquanto o rendimento da Selic é tributado na fonte, então os 4,8955% e os 6,8369% não são grandezas diretamente comparáveis no bolso de quem investe.
O que dá para dizer com segurança é mais modesto: em um semestre com juro básico rendendo perto de 6,84%, o fundo mediano entre os pagadores regulares distribuiu 4,90% em rendimento, sem contar o que aconteceu com o preço da cota.
Onde a amostra é pequena demais para conclusão
Alguns recortes deste texto não sustentam afirmação. Vale dizer quais.
Hotel teve três fundos pagadores em janeiro e três em junho, e a mediana caiu de 1,8028% para 0,7373%. Com três observações, a mediana é simplesmente o valor do meio, e um único fundo muda tudo. Não é tendência do segmento hoteleiro, é aritmética de amostra pequena.
O mesmo vale para Híbrido, com um fundo, Educacional, com dois fundos e nenhum pagador nas duas competências, e Varejo, que passou de 8 para 6 pagadores. Hospital, com 8 pagadores em junho, está no limite.
Em junho, 75 fundos não informaram o campo de dividend yield. Campo vazio não é zero e ficou de fora dos cálculos, o que é diferente dos 726 fundos que reportaram exatamente zero. A distinção é o que separa uma mediana honesta de uma mediana inventada.
Todas as agregações deste texto usam faixa de sanidade de 0% a 5% ao mês para rendimento, porque o conjunto contém valores legítimos mas extremos, incluindo fundos com patrimônio líquido negativo. Em junho, 15 fundos ficaram acima de 5% e saíram das medianas.
O que estes dados não dizem
O Informe Mensal de FII é a fonte primária mais completa e gratuita sobre fundamentos de FII no Brasil, e ainda assim não responde algumas das perguntas mais comuns.
Ele não traz cotação de mercado. Nenhum número deste texto é preço de cota, e nenhum permite calcular P/VP. O informe entrega o valor patrimonial por cota, que é o patrimônio dividido pelas cotas emitidas, e isso não é o preço do pregão. Ágio e deságio exigem cruzar com dados de bolsa, de outra fonte.
Ele não traz vacância nem contratos de locação. Esses campos vivem no informe trimestral, que é um conjunto de dados separado da CVM. Qualquer leitura sobre ocupação de laje corporativa ou de galpão logístico feita a partir deste arquivo seria inferência, não dado.
Ele não traz o ticker de negociação. O informe identifica o fundo por CNPJ e traz o ISIN, nunca o código de quatro letras usado na bolsa. Por isso este texto fala em segmentos e conjuntos, e não nomeia fundos por ticker.
Ele tem defasagem. A competência mais recente totalmente consolidada é junho de 2026, entregue ao longo de julho. Julho de 2026 já tinha 85 informes na data desta coleta, o que é cedo demais para qualquer estatística. A CVM ainda reprocessa o arquivo semanalmente para incorporar reapresentações, então números de competências recentes podem mudar.
E ele não diz nada sobre o futuro. Rendimento distribuído em junho é registro do que foi pago, não indicação do que será pago.
Perguntas frequentes
Por que a mediana de dividend yield dos FIIs aparece como zero?
Porque mais da metade dos fundos registrados na CVM não distribui rendimento mensal. Em junho de 2026, 726 dos 1.326 informes traziam rendimento exatamente zero. Calculada sobre todo o conjunto, a mediana é 0,0000%. O número relevante para quem investe em fundos de renda é a mediana entre os que distribuem, que foi 0,8585% em junho.
O patrimônio dos FIIs cresceu porque os fundos valorizaram?
Só em parte. Dos R$ 32,73 bilhões de aumento entre janeiro e junho de 2026, R$ 14,88 bilhões vieram dos fundos que já existiam em janeiro e R$ 19,17 bilhões vieram de fundos que entregaram seu primeiro informe depois disso.
Dá para saber se um fundo está barato com os dados da CVM?
Não com o informe mensal sozinho. Ele não contém cotação, e o valor patrimonial por cota não é preço de mercado. Comparar os dois exige buscar o preço do pregão em outra fonte.
Dados de competência de janeiro a junho de 2026, do Informe Mensal de FII da CVM, arquivo do ano de 2026 baixado em 10 de agosto de 2026. Indicadores de juros e inflação das séries 4390 e 433 do Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central, consultadas em 10 de agosto de 2026. Conteúdo informativo, sem recomendação de investimento.